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Publicado em 22/01/2018 à 02:01:45
Por: Camila Costa da Cunha
Respeito pelo saber indígena
UFSC oferece segunda turma de graduação no Curso de Licenciatura Intercultural para os povos Guarani,Kaingang e Laklãnõ/Xokleng

A educação dos povos indígenas, quase sempre menosprezada nas políticas públicas brasileiras, ganhou espaço de destaque na Universidade Federal de Santa Catarina a partir de 2011.

Nesse ano foi inaugurado o curso de graduação em Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica. Na primeira turma, composta por alunos de três povos das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste – Guarani, Kaingang e Laklãnõ/Xokleng –, 78 concluíram o curso em abril de 2015.

A iniciativa bem sucedida levou à reedição do curso no ano passado, com uma turma de alunos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná que concluirá a graduação em 2019. Mais de 500 candidatos disputaram as 45 vagas oferecidas no vestibular. “Esta licenciatura veio para ficar”, afirma a coordenadora do projeto, Antonella Tassinari, professora do Departamento de Antropologia do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC.
“O curso inaugurou uma nova maneira de diálogo intercultural, muito mais equitativa, reconhecendo que esses povos têm algo a oferecer à humanidade”.

Concebido em duas etapas, o projeto pedagó- gico estabelece o Tempo Universidade, com seis períodos de 15 dias de aula ao longo do ano no campus Trindade da UFSC, em Florianópolis; e o Tempo Comunidade, com atividades e pesquisas de campo nas aldeias.
Nos dois primeiros anos letivos, as aulas são organizadas por povo e nos dois últimos cada aluno elege uma habilitação: Licenciatura do Conhecimento Ambiental ou Licenciatura em Artes e Linguagens.

O desenho do curso foi elaborado junto com as comunidades indígenas, de forma a atender suas necessidades curriculares e a questões específicas, como transporte e hospedagem. Mulheres com filhos pequenos, por exemplo, podem trazê-los para o campus para conseguirem frequentar as aulas.

De vez em quando, a equipe da UFSC – formada por seis profissionais fixos, dois professores substitutos e bolsistas – se depara com situações inusitadas. Em uma ocasião, foi necessá- rio internar uma criança doente no Hospital Universitário. Outra vez, um grupo de alunos Laklãnõ/Xokleng teve de antecipar o retorno à aldeia porque suas terras haviam sido invadidas por grileiros. Mesmo com todas as dificuldades, os resultados têm superado as expectativas.

Autoria reconhecida

“A maioria dos alunos já é professor ou professora nas aldeias”, conta Antonella. “É um processo interessante, pois aplicam lá o que aprendem aqui e trazem a realidade de suas experiências para a sala de aula”. 

Entre os avanços da iniciativa ela menciona o repositório de estudos acadêmicos, que já são referenciados em muitas dissertações de mestrado e teses de doutorado. Antes mencionados como “informantes”, agora os indígenas são citados como “autores”. Os títulos dos trabalhos de conclusão de curso ilustram a riqueza que esse intercâmbio cultural pode proporcionar (veja quadro). Sempre que possível, a equipe docente tenta vincular os temas de interesse dos alunos aos núcleos de pesquisa da UFSC, tais como o Nepi (Núcleo de Estudos de Populações Indígenas), os de Gênero e Sexualidade, Saúde Indígena, Arqueologia e outros.

A proposta do Departamento é promover entradas regulares anuais na licenciatura, mas por enquanto isso ainda não foi possível, por causa de dificuldades institucionais e orçamentárias. “Agora estamos em um momento de adaptar o projeto pedagógico à estrutura da UFSC, de forma que, por exemplo, os departamentos possam oferecer professores para ministrar aulas no curso”, informa a coordenadora.

 

 Alunos em sala de aula, na UFSC

 

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